“O amor tem de estar em movimento”: Centro Pastoral Paulo VI reúne cerca de 300 pessoas em encontro da região Norte das Equipas de Nossa Senhora

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Cerca de 300 participantes reuniram-se, no Centro Pastoral Paulo VI, em Darque (Viana do Castelo), nas Jornadas Regionais das Equipas de Nossa Senhora da Região Norte, sob o tema “Amor em Movimento”. O encontro juntou casais de várias dioceses do Norte do país, num momento de formação, partilha e espiritualidade conjugal.

Num contexto de transformação social profunda, os números ajudam a enquadrar o desafio que a Igreja enfrenta. Segundo os últimos dados disponíveis do Instituto Nacional de Estatística (INE), “cerca de 80% dos casamentos celebrados em Portugal são exclusivamente civis”, enquanto apenas “cerca de 20% mantêm a celebração religiosa católica”. Ou seja, hoje, apenas aproximadamente 1 em cada 5 casamentos passa pela Igreja, uma inversão clara face a décadas anteriores, em que o casamento católico tinha um peso dominante na sociedade portuguesa.

“Uma diocese que acolhe é sempre privilegiada”

Na abertura das jornadas, o Bispo de Viana do Castelo, D. João Lavrador, destacou a importância do encontro para a vida pastoral da Igreja. “Uma diocese que acolhe é sempre privilegiada”, afirmou, sublinhando a alegria em receber casais de várias regiões. Para o prelado, estes momentos são essenciais porque permitem “partilha e diálogo”, ajudando os casais a “encontrar luz para o caminho, superar dificuldades e caminhar amparados uns pelos outros”.

D. João Lavrador defendeu ainda que a Pastoral Familiar continua a ser central na missão da Igreja, sublinhando a importância de movimentos como as Equipas de Nossa Senhora. “É necessário criar estímulos e fazer com que estes casais sejam fermento junto de outros2, considerou

Um movimento que quer crescer num cenário de menor adesão

Para a organização, representada por João Bompastor, o encontro superou expectativas, reunindo participantes de vários setores da região Norte, de Lamego a Braga, passando por Viana do Castelo, Porto e Guimarães.

O responsável destacou a “forte adesão” e o objetivo central do encontro. “Queremos reforçar a ideia de que «o amor tem de estar em movimento», num tempo em que os desafios à vida familiar são crescentes”, referiu.

“Levar este tesouro a outros casais”

Entre os convidados, o casal Daniel Pinto da Silva e Manuela Pinto da Silva, do Porto, responsáveis da Província Norte das Equipas de Nossa Senhora, contam com 27 anos de ligação ao movimento e defendem que o principal desafio passa pela abertura a novas gerações. “Precisamos de levar esta graça a outros casais. Se é bom, não pode ser um tesouro só nosso”, afirmaram, sublinhando que as Equipas de Nossa Senhora ajudam a transformar uma espiritualidade inicialmente vivida de forma individual numa vivência conjugal partilhada.

O casal insiste na ideia de que o crescimento do movimento depende, sobretudo, do testemunho. “Se outros virem que ser casado e viver o matrimónio cristão é viver com alegria, isso pode fazer diferença”, referiram, defendendo que não se trata de “ser exemplo de nada”, mas de mostrar um percurso real de vida. “O importante é olharem para nós e perceberem que este caminho vale a pena”, acrescentaram.

“Gerar vida também é estar ao serviço dos outros”

De Guimarães, Adelino Gomes e Conceição Novaes, participantes no movimento desde 2014, trouxeram uma reflexão centrada na ideia de fecundidade para além da parentalidade biológica.

O casal sublinhou que, apesar de existir frequentemente a associação entre casamento e filhos, a vivência cristã do matrimónio pode assumir outras formas de “gerar vida”. “Gerar vida também é estar ao serviço dos outros”, afirmaram, explicando que isso se traduz em disponibilidade concreta para a família, amigos e comunidade. “Cuidar de pais, apoiar vizinhos ou reorganizar a vida pessoal em função das necessidades dos outros”, exemplificar.

Para o casal, esta dimensão alarga o conceito de família e reforça a ideia de compromisso. “Estar disponível, mesmo quando implica abdicar de planos pessoais, também é viver o matrimónio”, defenderam.

“O mundo empurra para o eu, o casamento exige o nós”

Também o casal Ubiratan Júnior e Lorena Matias, de Valença, recentemente integrado nas Equipas de Nossa Senhora, destacou a importância da experiência comunitária e da troca entre casais. “Hoje o mundo empurra para o eu, mas o casamento exige o nós”, afirmaram, defendendo que a relação conjugal implica equilíbrio entre individualidade e vida partilhada.

Para o casal, a vivência em grupo ajuda a relativizar dificuldades. “Percebemos que os problemas são comuns e que há sempre caminho possível quando existe compromisso”, confidenciaram.

“O amor é muito mais do que o amor”

Ao longo das jornadas, o programa incluiu momentos de formação e reflexão com vários oradores convidados. Entre eles, o jesuíta João Carlos Onofre Pinto propôs uma leitura do matrimónio a partir de textos bíblicos e da experiência pastoral, centrada na ideia de que a vida conjugal se constrói tanto na memória como no cuidado quotidiano da relação.

O sacerdote sublinhou a importância de preservar a memória do encontro no casal, recorrendo à metáfora das “quatro horas da tarde”, expressão usada para simbolizar os momentos fundadores da relação. “Quando um acontecimento nos marca, lembramo-nos de todos os detalhes. O casamento também precisa de relembrar esses momentos e de os ir atualizando ao longo do tempo”, afirmou.

Na sua intervenção, defendeu ainda que muitos casais não precisam de “procurar fora” respostas para as dificuldades, mas antes de regressar ao que já existe na história partilhada. “O importante não é ir buscar coisas lá fora, mas aprofundar o que já existe dentro da história do casal”, referiu.

Outro dos eixos da reflexão passou pela comunicação conjugal, apontada como um dos pontos mais frágeis na vida dos casais. O jesuíta defendeu a necessidade de escuta e de presença, sublinhando que a convivência não garante, por si só, diálogo.

Num registo mais teológico, destacou ainda a dimensão contracultural do matrimónio cristão. Num contexto em que “muitos já não acreditam no amor”, considerou que casar hoje “é um gesto profundamente profético”, sublinhando a dimensão de compromisso e permanência como sinal no mundo contemporâneo.