Diocese de Viana do Castelo •

Igreja Católica no Alto Minho

NOTA PASTORAL SOBRE A CELEBRAÇÃO DOS 850 ANOS DA MORTE DE SÃO TEOTÓNIO

1. Faz 850 anos no próximo dia 18 de Fevereiro que faleceu S. Teotónio. Um jubileu que nós, diocesanos de Viana do Castelo, não podemos deixar de assinalar.
É que S. Teotónio, por ser oriundo de uma povoação que atualmente pertence à nossa diocese, é um dos seus padroeiros. Nasceu há 930 anos, em Tardinhade, freguesia de Ganfei, arciprestado e concelho de Valença. Aí foi também batizado e passou a maior parte da infância, aprendendo as primeiras letras no convento de Ganfei, até ir para junto do seu tio-avô D. Crescêncio, então bispo de Coimbra.
Foi, portanto, entre os nossos antepassados que ele iniciou o caminho de santidade que, neste mundo, culminou com a total e definitiva entrega a Deus, na sua morte a 18 de fevereiro de 1162, o dia anual em que, por isso, passou a celebrar-se a sua festa. Este ano, pelas circunstâncias jubilares, queremos vivê-la com um júbilo especial.
2. Queremos manifestar este júbilo, antes de mais, agradecendo ao Senhor todas as graças que, por intermédio deste nosso padroeiro, tem concedido e continua a conceder à nossa Igreja diocesana.
Ele foi um dos que mais procurou pôr em prática o que S. Paulo nos diz: nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo, mas para Cristo que morreu e ressuscitou, para ser o Senhor dos vivos e dos mortos (Rom 14, 7.9). E deste modo, também a vida de S. Teotónio adquiriu, com a sua morte, aquela vitalidade que Jesus, a propósito da sua própria vida e morte, compara à energia vivificante proveniente de um grão de trigo: se, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto (Jo 12, 24).
S. Teotónio tem sido, entre nós, um dos frutos mais fecundos desta oferta total da vida por parte do Senhor morto e ressuscitado: um fruto que, durante séculos e seguindo o mesmo processo de total entrega da vida, mais tem contribuído para que Ele, o Senhor dos vivos e dos mortos, produzisse novos frutos. É sobretudo por isso que Lhe queremos dar graças.

3. Mas queremos também pedir ao Senhor que continue a produzir novos frutos, recorrendo para isso, como fazemos tantas
vezes nas nossas orações, à intercessão de S. Teotónio. Sabemos que ele está no Céu a gozar daquela vida eterna, pela qual nós, como todo o ser humano, mais ansiamos e lutamos. Mas sabemos também que esse amor infinito que saboreia junto de Deus, ele o quer partilhar connosco, à maneira do que dizia S. Teresinha do Menino Jesus: “Quero passar o meu Céu a fazer o bem sobre a terra.”
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Um dos maiores bens que S. Teotónio nos pode fazer, é ajudar- nos, a nós que espiritualmente em parte dele descendemos, a realizar o que fez dele um modelo de santidade: a irmos ao encontro de Cristo. Trata-se daquele encontro que, nas palavras de Bento XVI, “está no início do ser cristão” e “dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.”
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Assim foi com S. Teotónio: desde o Batismo até à Ordenação sacerdotal e principalmente através da Eucaristia, ele não procurou outra coisa que não fosse a permanentemente renovada comunhão com Jesus Cristo, para assim d’Ele viver e conduzir outros ao encontro d’Ele. Para isso até peregrinou por duas vezes à Terra Santa e nos últimos anos antes de morrer renunciou ao governo do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, como seu primeiro prior, para se entregar completamente à vida contemplativa.
Foi também para suscitar este mesmo encontro pessoal com Cristo que escrevi a Carta Pastoral “Cristo em Vós: a Esperança da Glória”, propondo a sua leitura meditada e personalizada como programa para o ano pastoral em curso e como base programática para a revitalização da nossa Diocese. Que S. Teotónio, para mais estando nós a celebrar este seu ano jubilar, nos incentive e acompanhe nessa leitura.

4. Ele pode ainda iluminar-nos para que enfrentemos com olhos e mãos de cristãos a situação económico-social menos agradável que está a afetar a vida no nosso País.
S. Teotónio não foi apenas o primeiro santo português a ser canonizado depois da fundação da nossa Pátria. Ele foi também um dos conselheiros mais preciosos do nosso rei fundador, na conquista do território e na organização da sua população como nação. Contribuiu sobretudo, designadamente com a fundação e direção do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, para aquela dimensão espiritual e cristã que se manifestou determinante para a formação de uma consistente consciência nacional.
Que ele nos ajude a libertar-nos do individualismo contrário à comunhão fraterna própria dos cristãos e a despertarmos para o mesmo sentido de cidadania de que ele foi exemplo e hoje é imprescindível para ultrapassarmos os tempos um tanto conturbados e carenciados de esperança por que estamos a passar.
E que ele nos ajude a concretizar a nossa comunhão e solidariedade cristã como ele procurou fazer, sobretudo enquanto responsável máximo pela comunidade de Santa Cruz de Coimbra: abrindo o coração e estendendo as mãos aos mais carenciados de bens materiais e espirituais.
É assim que mais ao vivo manifestaremos a caridade que recebemos do Senhor – aquela caridade com que Ele triunfou para sempre sobre o pecado e a morte e se tornou a fonte da nossa esperança. Que esta esperança, a partir do nosso testemunho prático de cristãos, se estenda a todos os outros nossos concidadãos.

5. Para tudo isto, convido os diocesanos que puderem a participar nos três eventos que, a nível diocesano, se vão realizar por altura da festa de S. Teotónio:
- As XXIII Jornadas Teotonianas, de 17 a 19 de fevereiro, no salão paroquial de Monção, este ano com o tema: “A crise e o retorno de valores nos 850 anos da morte de S. Teotónio.”
- O XXXIV Encontro Diocesano de Pastoral Litúrgica, a 18 e 19 de fevereiro, no auditório do Centro Pastoral Paulo VI de Darque, com o tema: “Encontro com Cristo Sacramento.”
- A solene Eucaristia da festa de S. Teotónio, a que presidirei na Sé Catedral, pelas 18 horas do dia 18 de fevereiro.

Viana do Castelo, 22 de janeiro de 2012

+ Anacleto Oliveira, Bispo de Viana do Castelo



Notas:
1 Citação do Catecismo da Igreja Católica, n. 956.
2 In Deus Caritas est, n. 1.