Diocese de Viana do Castelo •

Igreja Católica no Alto Minho

Alocução na Benção do Mar - Romaria da Senhora da Agonia

(Após a leitura de Mc 4, 35-41)

1. Tempestades, como esta que nos acaba de ser relatada, são hoje mais raras que no tempo de Jesus; ou, seguramente, muito menos perigosas. Graças a Deus… e aos meios técnicos e de segurança que Ele, através da ciência humana, nos proporciona. Há hoje muito menos gente a morrer no mar que antigamente. Por exemplo, nas nossas descobertas marítimas.
Hoje as tempestades, as maiores e mais frequentes, acontecem em terra, incluindo o nosso País. E aí não é a água que destrói. É o fogo, que tantos males tem estado a causar entre nós.
Sim, o nosso País está a arder. Há semanas, há meses, há anos. E cada vez mais. Em 2017, que vai a pouco mais de meio, já ardeu mais do dobro da área ardida no ano passado. E isto, sem falar das pessoas mortas e das casas e outros bens destruídos. E no ano passado, se não me engano, ardeu tanta área no nosso País como nos restantes da Europa. Uma calamidade, de proporções cada vez mais alarmantes!

2. Chegou, por isso, a hora de dizermos: Basta! De gritar bem alto: Basta!
- Basta, senhor Presidente da República!
- Basta, senhor Primeiro Ministro e restantes membros do governo!
- Basta, senhores deputados do Parlamento da República!
- Basta, senhores oficiais e praças das forças armadas e policiais!
- Basta, senhores juízes e outros responsáveis pela justiça neste País!
- Basta, senhores autarcas de Portugal inteiro!
- Basta senhores bispos e padres e responsáveis de outras religiões.
- Basta, senhoras e senhores, todos os cidadãos deste País!
- Basta, basta de vez com tantos fogos a queimar a nossa querida Nação!
3. Obrigado, senhor Presidente da República, por tudo o que já tem feito: com a sua presença imediata e amiga nos lugares dos sinistros; e com o conforto e a coragem que tão afetuosamente tem transmitido às pessoas atingidas.
Mas não chegam, senhor Presidente. O País continua a arder.
- Obrigado, senhor Primeiro Ministro e outros governantes, pela exigência nos inquéritos mandados instaurar para detetar as causas dos incêndios e do mau funcionamento dos meios para os combater, e ainda pelos contributos financeiras e outros, entregues ou prometidos às populações atingidas.
Mas não chegam. O País continua a arder.
- Obrigado, senhores deputados, de apoio ao governo e da oposição: obrigado pelas leis, como as do ordenamento do território, emanadas com a intenção de eficazmente prevenir tais calamidades.
Mas não chegam. O País continua a arder.
- Obrigado, senhores membros de corporações de bombeiros, das forças armadas e da proteção civil do território – homens e mulheres incansáveis a combater as chamas e a salvar pessoas e habitações, pondo em perigo as próprias vidas ou até sacrificando-as.
Mas isso não chega. O País continua a arder.
- Obrigado, senhores juízes e outros promotores da justiça, pela coragem em castigar incendiários e dissuadir outros possíveis.
Mas não chega. O País continua a arder.
- Obrigado, senhores trabalhadores da comunicação social, pela cobertura mediática das calamidades e pela divulgação de campanhas de auxílio às vítimas.
Mas isso não chega. O mal já está feito; e o País continua a arder.
- Obrigado, bom povo português, residente no País e fora dele, pela exemplar generosidade com que tem contribuído para a ajuda às vítimas e a reconstrução ou substituição de bens destruídos.
Mas não chega. O País continua a arder, e cada vez mais.
4. Que fazer então? Resignar-se, como se de uma fatalidade se tratasse? – Não, meus amigos. Os incêndios, mesmo na proporção que atingiram, não são uma fatalidade. Digam-me: que não temos nós que outros países têm, alguns com mais florestas e um clima nada menos quente que o nosso?
Deixemos a tendência de apenas nos lamentarmos perante as desgraças!
Deixemos de falar de época de incêndios, como se fala de épocas balneares ou de exames. Como se já não pudéssemos viver sem incêndios.
Deixemos de combater os incêndios ou de socorrer as vítimas, preocupando-nos mais connosco, com a figura que fazemos, do que com o as necessidades e o bem dos outros, que é também o nosso próprio bem, ao ser o bem de toda a Nação.
Deixemo-nos de tudo isso e empenhemo-nos, isso sim, em mudar mentalidades, em formar e promover uma cultura anti-incêndios:
- Uma cultura de respeito sagrado pela natureza de que vivemos;
- Uma cultura de respeito sagrado pelo património que recebemos;
- Uma cultura de respeito sagrado, acima de tudo, pelas vidas dos outros e pelos bens de que precisam para viver. E, com eles, também nós.
- Enfim, uma mentalidade e uma cultura que, pelas proporções que venha a atingir e pelo domínio que venha e exercer sobre todos, eliminará, certamente e à raiz, a mínima tentação de provocar mais incêndios. Nada há de mais poderoso e eficaz que um povo inteiro unido pela mesma causa, no comum modo viver e pensar, numa mesma cultura.
5. Para isso, é urgente a mobilização de todas as pessoas no nosso País, sem exceção alguma, e a começar pelos seus maiores responsáveis:
- O senhor Presidente da República que, além da posição única que ocupa, tem um jeito peculiar e um prestígio suficientemente reconhecido, até para liderar a mobilização de toda a Nação nesta causa nacional. Faça-o, senhor Presidente. Por favor!
- Precisamos de todos os governantes, nacionais e locais, com os meios que só eles podem administrar. Usem-nos bem, senhores governantes, como servidores, não se de si próprios, mas do nosso País. Por favor!
- Precisamos de todos os que trabalham na salvaguarda da paz, na aplicação da justiça, no serviço do ensino e da educação. Façam-no, a pensar unicamente no bem dos outros. Por favor!
- Precisamos dos colaboradores nos meios de comunicação social, que tanta influência podem exercer na maneira de pensar e agir das pessoas. Aproveitem-na, unicamente para o verdadeiro bem delas. Por favor!
- Precisamos de envolver todas as escolas, desde a creche ao ensino superior, e todas as organizações e associações, de ordem religiosa, socio-caritativa, política, cultural, recreativa, educativa. Colaborem nesta causa, usando a relação que une todos os seus membros. Por favor!
- Precisamos, enfim, de todos os cidadãos e cidadãs, dos mais novos aos mais idosos, a viver no País ou fora dele, crentes ou não crentes em Deus. Unamo-nos, todos e de modo concertado, na promoção e defesa da mesma cultura anti-incêndios. Por favor, meus amigos!
5. Senhora da Agonia, peço perdão, se falei alto de mais e sobretudo se alguém se sentiu ofendido com o que disse. Disse-o a pensar em ti. Porque sei que és Mãe. E toda a boa mãe, de quando em vez, precisa de dar um murro na mesa e gritar mais alto – pelo bem que tanto quer aos filhos.
Só te peço mais esta graça de Mãe: que nenhum dos presentes saia daqui, sem o compromisso de transmitir aos outros a mensagem que acabam de ouvir. É a tua mensagem, nesta Romaria de 2017. Se a não cumprirmos e divulgarmos, será em vão que aqui viemos, não passará de uma farsa a devoção que nos prende a ti. Que ninguém se cale. Quem cala consente. Calar-se é colaborar no mal que está a destruir a nossa querida Nação.
Que todos levemos a tua mensagem a todos. Que a façamos chegar aos que mais podem fazer para que ela se conheça e cumpra. Que usemos para isso os diversos meios de comunicação que temos. A tua mensagem, Senhora da Agonia, está escrita e até está a ser gravada. Está por isso à disposição de todos.
E quando, daqui a pouco, entrarmos contigo neste mar calmo e sereno, ajuda-nos a não desviarmos os olhos da terra: é lá que rebentam e proliferam as tempestades, que lavram os fogos. É lá que somos precisos, contigo, nossa Mãe querida.


† Anacleto Oliveira (Bispo de Viana do Castelo)

Resposta do Presidente da República