Diocese de Viana do Castelo •

Igreja Católica no Alto Minho

MENSAGEM DE ABERTURA DO ANO DA FÉ

na Diocese de Viana do Castelo

Irmãs e irmãos caríssimos:
Estamos a iniciar o Ano da Fé, e – providencialmente – é da fé que o Senhor hoje nos fala nas leituras bíblicas desta Eucaristia. Na segunda, da Carta aos Hebreus, diz-nos que é da sua Palavra,
viva e eficaz, que nasce e se alimenta a nossa fé. No Evangelho, ligado à leitura do Livro da Sabedoria, mostra-nos como isso acontece, isto é, qual o caminho a seguir para acolhermos a sua Palavra e n’Ele acreditarmos – um caminho duro, mas que vale a pena percorrer, tão maravilhosa é a meta a que nos conduz.
Convido-vos, por isso, a fixarmo-nos no relato do Evangelho de Marcos, acolhendo-o como Palavra de Deus e procurando ver em que medida ela se aplica à vida de cada um de nós.

1. Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?
É desta pergunta inicial que depende o restante relato evangélico. Que a pergunta é de suma importância, pode ver-se já pelas circunstâncias em que é feita:
- Primeiro, é
a correr que o homem se aproxima de Jesus. Quantas vezes também nós corremos contra o tempo e o espaço, quando precisamos de alguma coisa urgente e imprescindível para a nossa vida!
- Depois,
ajoelha-se: um gesto de respeito profundo perante alguém a quem se reconhece um poder único. O homem sabe disso, tendo em conta o que S. Marcos escreve sobre Jesus nas páginas anteriores do seu Evangelho.
- E é também por saber disso que ele começa por chamar a Jesus
Bom Mestre. “Bom”, no sentido de capaz, digno da maior confiança.
- Veja-se, finalmente, o modo pessoal como a pergunta é formulada: o homem não diz “o que se há-de fazer”, mas sim
o que hei-de fazer. Parece realmente disposto a seguir a resposta de Jesus.
E com toda a razão. Não está em jogo um simples aspecto, mesmo fundamental, da vida, mas a vida no seu todo. Vencer todas as limitações – e são tantas – a que a nossa existência humana está sujeita, é para isso que todos mais lutamos. Tentei mostrá-lo na primeira parte da minha Carta Pastoral “Cristo em vós: a Esperança da Glória”, que certamente a maior parte de nós já leu e meditou: vivemos, na medida em que lutamos contra a morte e tudo aquilo que a ela pode levar – uma luta de todos os dias e com todos os meios ao nosso alcance.
Por isso, convido cada um de nós a que pergunte também ao Senhor, como o homem do Evangelho:
Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? Façamo-lo, durante um breve silêncio, enquanto esperamos pela resposta do Senhor…

2.
Tu sabes os mandamentos.
Antes de indicar de que mandamentos se trata, e para realçar o seu valor, Jesus começa por dizer: Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Isto é, a bondade de Jesus, de que ninguém duvida, só em Deus tem a sua origem – no Deus a quem tantas vezes recorremos, principalmente quando a nossa vida corre perigo. E uma das maiores manifestações da bondade divina é o Decálogo. Faz parte da aliança que Deus estabeleceu com o seu povo, para lhe garantir uma vida duradoira e feliz.
Também nós conhecemos os Mandamentos da Lei de Deus. Muitos até os sabemos de cor, desde crianças. Outros conhecem-nos pela experiência da vida. O que Deus prescreve no Decálogo, está inscrito na lei natural. Não há sociedade humana que possa funcionar, sem normas idênticas às do Decálogo bíblico.
É o caso das normas que Jesus nos recorda:
Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe. Trata-se da segunda parte do Decálogo, isto é, dos mandamentos que se resumem no amor ao próximo, um amor que exige o máximo respeito pelo bem dos outros. E se eu respeito assim a sua vida, também a minha, como ser social que sou, está garantida. Segundo Jesus, é por esse caminho que se chega à vida eterna.
Mas será isso suficiente? Para o homem do Evangelho, não. Caso contrário, não teria vindo procurar Jesus e não Lhe teria agora respondido:
Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude. Que falta então, a ele e a cada um de nós, para a tão desejada dimensão eterna da nossa vida? Preparemo-nos para a resposta de Jesus, de novo em silêncio…



3. Falta-te uma coisa: vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me.
São cinco imperativos. O mais importante é o último: Segue-me. Os anteriores – vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e vem – são, todos eles, condições para seguirmos Jesus. Já havia sido assim com os primeiros discípulos – Pedro e André, Tiago e João: para seguirem Jesus é que deixaram as redes, o barco, o pai e seus assalariados (Mc 1,16-20). Por que razão o fizeram? Que tinha e tem Jesus de tão atrativo que leva a opções tão radicais?
A resposta é: o Evangelho do Reino de Deus que Jesus anuncia e inicia. O nosso Deus, Criador e Senhor do Céu e da terra, estava presente e vivo em Jesus, como em ninguém até então. A partir de agora optar por Deus significa optar por Jesus e vice-versa. Significa acreditar no Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, como único Deus vivo e verdadeiro, o único que pode satisfazer a nossa profunda fome e sede de vida. Só assim Ele reina sobre nós e em cada um de nós: se, pela fé, a Ele nos submetermos, com tudo o que temos e somos.
Na prática, é isto que Jesus pede ao homem que, no Evangelho em que estamos a meditar, procura em Jesus o caminho para a vida eterna. Possivelmente, repararam que Jesus, antes, ao citar os Mandamentos da Lei de Deus, deixou de fora os três que se resumem no total e incondicional amor a Deus. Apresenta-os agora, pressupostos no convite
vem e segue-me – um convite precedido de um olhar carinhoso, conquistador, um olhar transmissor daquela bondade que só Deus tem.
Mas tudo isto foi em vão para aquele homem. Ao ouvir o convite de Jesus,
anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se triste. Porquê? – Era muito rico, diz S. Marcos. Preferiu as suas riquezas a Jesus e ao reino de Deus – uma opção muito frequente nos nossos dias e da qual nenhum de nós está totalmente livre. Atendamos, por isso, à reacção de Jesus…


4. Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!
Estas palavras, dirigidas aos discípulos, deixam-nos estupefactos. E a admiração aumenta, quando Jesus, chamando-lhes meus filhos, as repete quase literalmente e acrescenta: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. Trata-se de algo impossível, pelo menos humanamente. Daí a reacção dos discípulos: Quem pode então salvar-se? E a resposta de Jesus, fixando os olhos neles: Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível.
Mas se a Deus é possível, tem de o ser igualmente para aqueles nos quais Ele reina pela fé. O próprio Jesus o diz a um pai que lhe suplica a cura do filho possuído de um espírito mudo: Tudo é possível a quem acredita (Mc 9 23). Di-lo também a cada um de nós, talvez a braços com semelhantes situações dramáticas:
- Di-lo, por exemplo, à mulher grávida de um filho inesperado e indesejado: se crês em Deus, não permitas que matem o fruto do teu ventre, porque toda a vida vem de Deus.
- Diz ao casal, tentado a divorciar-se: não vos precipiteis, para vosso bem e o bem dos vossos filhos, mas recorrei ao Deus da misericórdia e do perdão, que tudo pode.
- Diz ainda aos filhos, cujos pais se tornaram um peso, pela idade ou a doença: dai-lhes todo o apoio e carinho, pois foi por meio deles que Deus vos deu a vida que tendes.
- Diz a cada um de nós, seus discípulos: não te acomodes egoisticamente ao teu bem-estar, mas partilha com os outros os dons e bens que recebeste de Deus, a quem tudo pertence.
- Diz-nos ainda o Senhor Jesus, perante desgraças que podem abater-se sobre nós: não desespereis, pois foi no maior fracasso da minha vida terrena, a morte na cruz – foi então que eu mais me confiei a Deus meu Pai. Por isso aqui estou vivo e glorioso, para vos ajudar.
Tudo isto e muito mais, nos diz o Senhor, para n’Ele acreditarmos. Di-lo, chamando-nos
meus filhos e fixando em nós o seu olhar. Perante tanta ternura, rezemos-Lhe, no silêncio dos nossos corações, como o pai da criança com o espírito mudo: Eu creio, mas ajuda a minha pouca fé!


5. Vê como deixámos tudo para te seguir.
Estas palavras, ditas por S. Pedro a Jesus, começam com o pedido: . Isto é, mantém sobre nós o mesmo olhar amoroso que nos atrai e conquista para Ti e para Deus, para vermos realmente até onde a nossa fé nos pode levar.
A prece é feita em nome dos restantes discípulos, em nome, portanto, de cada um de nós. Também nós, nomeadamente para hoje aqui nos reunirmos, deixámos tantas coisas, porque queremos estar com Jesus e O seguirmos por toda a nossa vida.
Ouçamos então a sua reposta:
Em verdade vos digo: todo aquele que tiver deixado casa ou irmãos ou irmãs ou pai ou filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas e irmãos e irmãs e filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna.
Reparemos como aquilo que Jesus nos promete é muitíssimo mais do que aquilo que temos de deixar:
- É mais, porque aquilo que deixamos é apresentado de modo disjuntivo:
ou casa ou irmãos ou irmãs ou pai ou filhos ou terras. Isto é, cada um deixa somente o que o impede de seguir Jesus e acolher o seu Evangelho do Reino de Deus. Mas o que por isso recebemos acumula-se em casas e irmãos e irmãs e filhos e terras, porque tudo isso e muitíssimo mais é de Deus, Senhor do Céu e da terra.
- É mais o que d’Ele recebemos, porque se multiplica por cem vezes, já neste mundo. Quem de nós não tem experiência disso – designadamente na Igreja, a família em que o Pai é Deus, que faz de nós irmãos e irmãs uns dos outros, como está a suceder hoje aqui! E para onde quer que vamos, é difícil não encontrarmos uma comunidade cristã a acolher-nos e a partilhar connosco a sua vida. E nem as carências ou perseguições nos amedrontam, porque então redobra o amor que nos une a Deus e aos outros.
- Mas é infinitamente mais o que recebemos, sobretudo porque desses dons faz parte a vida eterna – uma vida iniciada já neste mundo, na comunhão com Deus e entre nós, que atingirá a sua plenitude no mundo futuro. Assim aconteceu com Jesus: foi na morte, em que Ele totalmente se entregou a Deus por todos os homens, foi com esse amor ilimitado que Ele nos obteve a glória da ressurreição. E é este amor que Ele nos comunica nesta Eucaristia, dando-nos o seu Corpo, entregue por nós, e o seu Sangue, derramado por nós e por todos.
Irmãs e irmãos caríssimos:
Se é esta a nossa fé, a fé da Igreja que nos gloriamos de professar em Jesus Cristo nosso Senhor, então não nos cansemos de a professar do fundo do coração, hoje e em todos os dias deste Ano da Fé.

Viana do Castelo, 14 de Outubro de 2012

† Anacleto Oliveira (Bispo de Viana do Castelo)